Sumário

Farmacodinâmica aplicada aos medicamentos para tratamento da ansiedade

Como os medicamentos ansiolíticos produzem efeitos e diminuem a ansiedade? Entender os mecanismos de ação destes medicamentos é fundamental para a compreensão dos seus efeitos na redução dos sintomas da ansiedade.

A farmacodinâmica é a área da farmacologia que estuda o mecanismo de ação, os efeitos fisiológicos e os efeitos colaterais de um fármaco no organismo. Os fármacos utilizados no tratamento da ansiedade pertencem a um grupo especial de drogas chamado psicofármacos. Neste grupo, encontram-se a Sertralina e o Escitalopram, que estão entre os 20 fármacos mais prescritos nos Estados Unidos, ambos considerados medicamentos de primeira linha para o tratamento da ansiedade.

Os antidepressivos tricíclicos (por exemplo imipramina, amitriptilina, nortriptilina) também fazem parte do arsenal terapêutico dos transtornos de ansiedade. Os tricíclicos foram inicialmente indicados para depressão, mas atualmente são utilizados na terapia de diversas condições que envolvem também dor e insônia. Além disso, estes fármacos têm demonstrado efeito terapêutico no transtorno obsessivo-compulsivo, no transtorno do pânico, transtorno de estrese pós-traumático, bulimia nervosa e enurese na infância (Fonte: Cleveland Clinic Journal of Medicine, 2019).

          Podem ser utilizados ainda os benzodiazepínicos, que constituem o grupo de psicofármacos mais prescritos no mundo. Entretanto, sua utilidade terapêutica na ansiedade é limitada ao controle das crises agudas, já que estes fármacos podem causar dependência.

Ansiolíticos de primeira escolha: inibidores da recaptação seletiva de serotonina (IRSS)

A Sertralina e o Escitalopram são fármacos inibidores da recaptação
seletiva de serotonina (IRSS), e este é exatamente seu mecanismo de ação. Estes
fármacos atuam nas sinapses serotoninérgicas (figura 1), ou seja, naquelas sinapses onde a
serotonina é liberada por um neurônio pré-sináptico para atuar em um receptor
(alvo) pós-sináptico. O recaptador (ou transportador) é uma estrutura
localizada na pré-sinapse responsável por remover a serotonina da fenda
sináptica e “devolvê-la” para a pré-sinapse, um mecanismo fisiológico de
término da ação do neurotransmissor. Portanto, em condições normais, a
serotonina é liberada na fenda sináptica, liga no receptor pós-sináptico e
assim produz uma resposta no neurônio pós-sináptico. Em seguida, esta molécula
de serotonina desliga do receptor e se liga no transportador pré-sináptico,
para ser recaptada e reciclada. Os fármacos da classe dos IRSS se ligam a estes
recaptadores (transportadores) impedindo a ligação da serotonina, fazendo com
que este neurotransmissor passe mais tempo na fenda sináptica ligando e
desligando no receptor pós-sináptico, aumentando seu efeito.

Figura 1. Esquema ilustrativo dos componentes de uma sinapse serotoninérgica, importante na regulação das respostas de ansiedade.

Essa alteração na dinâmica do neurotransmissor serve como estímulo para adaptações do neurônio à nova condição proporcionada pela presença do fármaco. Os processos adaptativos resultam em modificações na atividade destes neurônios e impactam no processamento das informações pelo cérebro. A serotonina é um neurotransmissor que está implicado na regulação de respostas de ansiedade, como a inibição comportamental, a vigilância e a atenção seletiva. Estudos pré-clínicos e clínicos mostram que os fármacos que inibem a recaptação da serotonina são capazes de atenuar as respostas de ansiedade. Como os processos adaptativos do neurônio em resposta ao tratamento com os IRSS levam um certo tempo para ocorrer, os efeitos comportamentais são percebidos após um período mínimo de tratamento, que em geral é de 3-4 semanas.

Antidepressivos tricíclicos: como atuam nos transtornos de ansiedade?

Os antidepressivos tricíclicos como a imipramina, a amitriptilina e a nortriptilina fazem parte do tratamento de segunda linha de alguns transtornos de ansiedade, como o transtorno de ansiedade generalizada e o transtorno de estresse pós-traumático. Assim como os IRSS, o mecanismo de ação dos tricíclicos também envolvem a inibição de recaptadores. Porém neste caso, são dois recaptadores inibidos: os que transportam serotonina e os que transportam noradrenalina. Desta forma, os antidepressivos tricíclicos aumentam a ação dos dois neurotransmissores: da serotonina e da noradrenalina. Essa nova condição neuroquímica serve de estímulo para que os neurônios modifiquem a dinâmica da neurotransmissão, levando a um ajuste da regulação da atividade neuronal. No caso da noradrenalina, esse ajuste contribui para a redução de respostas fisiológicas da ansiedade e no alívio da preocupação excessiva. É importante ressaltar que estes ajustes neuronais levam um tempo para ocorrer, em média 3-4 semanas. Portanto, os efeitos terapêuticos (alívio dos sintomas) somente serão observados após esse período de adaptação neuronal.

          Além de atuar nos recaptadores, os tricíclicos também atuam em receptores pós-sinápticos, causando efeitos colaterais como aumento de pressão arterial, sono, boca seca, enjôos e alterações de peso.

Benzodiazepínicos: como reduzem a ansiedade?

Os benzodiazepínicos (BDZ) são um grupo de agentes psicotrópicos que atuam no receptor GABAérgico (figura 2), que é um canal iônico, permeável ao íon cloreto (negativo), e que abre quando o GABA se liga no seu local (sítio) específico.

Figura 2. Esquema ilustrativo receptor GABAérgico, onde atuam os benzodiazepínicos (BDZ).

Os BDZ como o clonazepam, o diazepam e o alprazolam (entre outros) se ligam no receptor e aumentam a ação do GABA. Desta forma, o canal fica mais tempo aberto e o influxo de cargas negativas (íons cloreto) fazem com que os neurônios fiquem inibidos. Desta forma, os BDZ diminuem a atividade neuronal. Esta alteração neuronal resulta em mudanças no comportamento: sono, diminui a agitação psicomotora e a agressividade. Os BDZ também têm efeito sobre os sintomas fisiológicos: diminui a frequência cardíaca e respiratória, além de ser muito útil no controle de crises convulsivas. Vale lembrar que a atividade neuronal é importante para a aprendizagem e memória, portanto, o efeito inibitório dos BDZ causa amnésia e prejuízo de aprendizado.

Para saber mais sobre os tratamentos da ansiedade, assista o vídeo da aula "Ansiedade e Tratamento Farmacológico" :

Referências

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